quarta-feira, 16 de setembro de 2026

TEMPO PERDIDO

 

         Certo homem era marceneiro de profissão e possuía extraordinária facilidade para trabalhar com madeira. Era um verdadeiro mestre em seu ofício e todos admiravam seus trabalhos.

         Esse homem tinha um sonho.

         Desejava esculpir na madeira uma imagem de Jesus, a quem ele amava profundamente, em tamanho natural.

         Conversando com um amigo, o marceneiro falou do sonho que acalentava em seu íntimo e o companheiro o incentivou:

         - Então por que você não começa? Com seu talento e habilidade nas mãos, tenho certeza que a escultura será uma obra prima!

         Ao que o marceneiro respondeu: 

         - Ah! Meu amigo! Desejo não me falta. Contudo, o trabalho deverá ser perfeito e ainda não resolvi qual a madeira que irei utilizar.

         Sempre em dúvida, o artesão deixava o tempo passar. Uma madeira porque era muito rija; a outra porque não era resistente o suficiente; outra era macia e de fácil manejo, porém a tonalidade não o agradava.

         E assim o tempo foi passando e o marceneiro não se dava conta.

         Alguns anos depois reencontrou o amigo que tinha retornado à cidade e, curioso, perguntou sobre a obra.

         - Já resolvi o tipo de madeira que irei trabalhar. Entretanto, ainda não iniciei porque não estou nas minhas melhores condições íntimas. Creio que para esculpir a figura do Mestre preciso estar bem comigo mesmo e com o mundo. Sabe como é, os fregueses exigem muito da minha atenção e, não raro me irrito, perdendo a paciência. Além disso, não podendo dispensar o serviço da marcenaria, onde ganho o sustento para minha família, só posso dedicar-me ao sonho acalentado pela minha alma nos momentos de folga. E aí, grande parte das vezes, eu sinto-me exausto e sonolento. Contudo — completava tentando aparentar entusiasmo —, pretendo começar minha obra prima dentro em breve.

         Algum tempo depois, voltaram a se encontrar e, questionado pelo amigo que demonstrava interesse pelo assunto, o artesão argumentava:

         - Infelizmente, ainda não iniciei o trabalho porque as condições não permitem. A família exige muito da minha atenção e os filhos requisitam meus carinhos. Você compreende, ainda são pequenos e dependentes. Porém, quando que eles crescerem um pouco mais, poderei trabalhar em paz.

         E assim o tempo foi passando. Muitos anos depois, em visita à cidade, o amigo foi procurar o marceneiro. Encontrou-o velho e doente.

         Após os cumprimentos e a troca de notícias, felizes com o reencontro, o visitante interrogou, curioso:

         - E daí? Estou ansioso para ver o trabalho que você tanto desejava executar. Com certeza deve ter ficado soberbo!

         Os olhos do artesão se apagaram e uma tristeza infinita vibrou em sua voz já trêmula pela idade:

         - Ah, meu amigo! Infelizmente, nem cheguei a iniciar o trabalho que representava o sonho de toda uma vida. As dificuldades foram muito grandes e a necessidade de prover o sustento da família me absorveu. Agora, encontro-me doente e sem forças. A vista está fraca e já não enxergo mais como antes, e as mãos, trêmulas, não me permitem mais trabalhar.

         Penalizado, o visitante amigo viu-o puxar um lenço e enxugar uma lágrima, cheio de arrependimento e amargura.

         - É tarde, meu amigo. Tive todas as condições e não soube aproveitar. Perdi a oportunidade que o Senhor me concedeu.

         Tentando animá-lo, o visitante considerou:

         - Quem sabe? Não desanime. Talvez ainda seja possível.

         O marceneiro fitou o amigo, demonstrando que compreendia toda a extensão da sua inutilidade e da sua cegueira, e respondeu convicto:

         - Não agora; só se for em outra existência!




(Célia Xavier Camargo , na Revista O Consolador)

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

VONTADE DIVINA


“E não vos conformeis com este mundo,
mas transformai-vos pela renovação do
vosso entendimento para que experimenteis
qual seja a boa, agradável e perfeita vontade
de Deus”.
– Paulo.(Romanos, 12:2.)

 

Expressa-se a Vontade de Deus pelas circunstâncias da existência; todavia, devemos apreendê-la na essência e no rumo, o que nos será claramente possível.

Não só pelos avisos religiosos que nos ajudam a procurá-la.

Nem pelos constrangimentos da Terra, que nos impelem a compromissos determinados.

Nem pelos preceitos sociais que nos resguardam em disciplina.

Nem pela voz dos amigos que nos apoiam a caminhada.

Nem pelos acicates da prova que nos corrigem os sentimentos.

A fé ilumina, o trabalho conquista, a regra aconselha, a afeição reconforta e o sofrimento reajusta; no entanto, para entender os Desígnios Divinos a nosso respeito, é imperioso renovar-nos em espírito, largando a hera do conformismo que se nos arraia no íntimo, alentada pelo adubo do hábito, em repetidas experiências no plano material.

Recebamos o auxílio edificante que o mundo nos ofereça, mas fujamos de contemporizar com os enganos do mundo, diligenciando burilar-nos cada vez mais, porque educação conosco é clarão no âmago da própria alma e por muito brilhemos por fora, no jogo das ocorrências temporárias da estância física, nada entenderemos da luz de Deus que nos sustenta a vida, sem luz em nós.

 


Francisco Cândido Xavier por Emmanuel. In: Palavras de Vida Eterna

domingo, 6 de setembro de 2026

PESSOALMENTE



Estudos e dissertações de “O céu e o inferno”
1ª Parte, Cap VII, Parag. 13, de Allan Kardec
pelo Espírito Emmanuel.

 

       Toda produção tem alicerces na unidade.

       As máquinas que se padronizam para esse ou aquele gênero de trabalho, mesmo que se pareçam entre si, são aparelhos que se individuam distintamente.

       As árvores, embora revelem as características da espécie a que se filiam, possuem existência própria.

       Os alunos de um estabelecimento de ensino partilham lições iguais, na classe a que se ajustam; no entanto, reagem de modo particular, diante do estudo, e classificam-se com notas diferentes.

       Catalogam-se enfermos num hospital, segundo os sintomas que apresentam; contudo, cada um exige ficha determinada e tem o seu problema resolvido no momento exato.

       Surgem máquinas e constrói-se a oficina.

       Repontam árvores e alteia-se a floresta.

       Congregam aprendizes e levanta-se a escola.

       Alinham-se doentes e a casa de saúde aparece.

       Recorremos, porém, a semelhantes imagens para destacar que o inferno, considerado por localidade inferior ou estância de suplício, depois da morte, começa de cada um e comunica-se, pessoalmente, de espírito desvairado a espírito desvairado.

       Não haveria penitenciária se não houvesse delinquente.

       Notemos, ainda, que se a ciência médica no mundo ergue caridosamente o manicômio, para socorrer a loucura, a Providência Divina permite a colonização dos seres bestializados, além do túmulo, em regiões específicas do Espaço, para limitação e tratamento das calamidades mentais em que se projetaram ou que fizeram por merecer.

       Desse modo, que nenhum de nós se esqueça da lei de ação e reação.

       Isso porque a falta, que depende de nós, chega antes, e o sanatório que a corrige chega depois.

   

 

De “Justiça Divina”, de Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel

sábado, 5 de setembro de 2026

ROTULAGEM


 

“Mas quem não possui o espírito do

Cristo, esse não é dele.”

– Paulo. (Romanos, 8:9)

 

A rotulagem não tranquiliza.

Procuremos a essência.

Há louvores em memória do Cristo, em muitos estandartes que estimulam a animosidade entre irmãos.

Há símbolos do Cristo, em numerosos tribunais que, em muitas ocasiões, apenas exaltam a injustiça.

Há preciosas referências ao Cristo, em vozes altamente categorizadas da cultura terrestre, que, em nome do Evangelho, procuram estender a miséria e a ignorância.

Há juramentos por Cristo, através de conversações que constituem vastos corredores na direção das trevas.

Há invocações verbais ao Cristo, em operações puramente comerciais, que são escuros atentados à harmonia da consciência.

Meditemos na extensão de nossos deveres morais, no círculo das responsabilidades que abraçamos com a fé cristã.

Jesus permanece em imagens, cartazes, bandeiras, medalhas, adornos, cânticos, poemas, narrativas, discursos, sermões, estudos e contendas, mas isso é muito pouco se lhe não possuímos o ensinamento vivo, na consciência e no coração.

É sempre fácil externar entusiasmo e convicção, votos brilhantes e frases bem-feitas.

Acautelemo-nos, porém, contra o perigo da simples rotulagem. Com o apóstolo, não nos esqueçamos de que, se não possuímos o espírito do Cristo, dele nos achamos ainda consideravelmente distantes.

 

 

Fonte Viva. Francisco C. Xavier por Emmanuel

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A MELHOR MEDIDA


 
"Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita,
para que sejais perfeitos e completos,
sem falar em coisa alguma."
(TIAGO, 1:4)
 

Mais que as doenças vulgares do corpo, sofres os problemas da alma, agravando-te a tensão, a cada dia.

Mais que os micróbios patogênicos a assaltarem-te os tecidos do instrumento físico, padeces a intromissão de agentes mentais inquietantes, atormentando-te as fibras da alma.

Levantas-te, cada manhã, muita vez, com as lutas da véspera e antes que se te rearmonizem as forças, cambaleias mentalmente ao impacto da irritação de familiares incompreensivos.

Prestas longas explicações a benefício da tranquilidade ambiente; contudo, mal terminas o arrazoado afetuoso, há quem te malsine a palavra, complicando as questões em torno...

Movimentas correção e sinceridade, honrando os próprios deveres; todavia, quando te julgas a cavaleiro de toda a crítica, aparece alguém arrastando-te o coração ao mercado da injúria...

Empenhas carinho e abnegação no cultivo do amor ao lado de alguém; contudo, quando te crês em segurança no caminho do entendimento, observas que a ingratidão te envenena os melhores gestos...

Entretanto, há frente de toda a dificuldade não te lastimes, nem desfaleças...

Para toda a perturbação, a paciência é a melhor medida.

Não profiras qualquer palavra de que te possas arrepender.

Silencia e abençoa sempre, porque, amanhã, quantos hoje se precipitam na sombra voltarão novamente à luz.

Esquecido, usa a paciência e ajuda sem exigir.

Insultado, recorre à paciência e esquece o mal.

Em todas as dores, arrima-te à paciência.

Em todo o embaraço, espera com paciência.

Todo o progresso humano surge da paciência Divina. Conserva-te, pois, na força da paciência e, onde estejas, farás sempre o melhor.

 


(Francisco Cândido Xavier por Emmanuel. In: Palavras de Vida Eterna)

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A ORAÇÃO


A principio, é um rumor do coração que clama,

Asa leve a ruflar da alma que anseia e chora...


Depois, é como um círio hesitante da aurora,
Convertendo-se, após, em resplendente chama...


Então, ei-la a vibrar como estrela sonora!
É a prece a refulgir por milagrosa flama,
Glória de quem confia o poder de quem ama,
Por mensagem solar, cindindo os céus afora...


Depois, outro clarão do Além desce e fulgura,
É a resposta divina aos rogos da criatura,
Trazendo paz e amor em fúlgidos rastilhos!...


Irmão, guardai na prece o altar do templo vosso!
Através da oração, nós bradamos: - "Pai Nosso!"
E através dessa luz, Deus responde: - "Meus filhos!"



Francisco Cândido Xavier.
In: À luz da oração

terça-feira, 1 de setembro de 2026

EM TAREFA DE AMOR

 

Emmanuel

 

A tarefa de amor

Resume-se em servir.

 

Decide-te e começa...

Une-te aos companheiros,

Sem contar desenganos.

 

Há irmãos que se queixam

Outros se desanimam,

 

Alguns te desaprovam,

Muitos te desconhecem...

 

Mas se segues com Deus

Nunca te cansarás.

 


Do livro "Material de Construção", Emmanuel, Francisco C. Xavier

TEMPO PERDIDO

           Certo homem era marceneiro de profissão e possuía extraordinária facilidade para trabalhar com madeira. Era um verdadeiro mestr...